•março 2, 2010 • 1 Comentário

Fechar os olhos e sentir seu cheiro, acordar pensando em você e sabendo que a noite inteira você me visitou nos meus sonhos, agradecer por não me lembrar. A cama cresceu de tamanho e o peito diminuiu.

Eu espero o telefone tocar naquele momento oportuno, e quando chego em casa olho feliz pela janela um vulto que desce a rua, mas não é você. Eu escrevo sem ter destinatário e espero uma carta que não tem meu endereço. Quem vai me levar no médico e fazer um chá de limão com alho que eu não vou querer tomar? E quem vai me esperar na porta de casa com uma camisa velha e desbotada, com cara de sono e a barba mal-feita e um cigarro na mão? Quem vai me abraçar quando eu chorar vendo a novela?

Fiz de tudo para apagar da memória seu rosto, seu beijo, seu falar, seu apartamento. Tentei afogar as mágoas no álcool libertador, mas esse só me trouxe mais saudades das vezes em que você bebeu comigo e demos risada como crianças, dançando pelas ruas da cidade. Fugi da sua lembrança e da sua existência e da sua presença incessante nos livros, discos, filmes…mas quando me distraio, mesmo que por um segundo, é seu sorriso que me aparece, como uma assombração, como um aviso, como um alerta. Como um espectro do que é o amor.

Às vezes eu esqueço e acho que posso suspirar de novo, como no começo, mas os suspiros são de saudade sua. Uma saudade que machuca e que eu deixo doer, pra ver se passa. Uma saudade de tudo que foi e de tudo que eu achei que poderia ser mas que não teve a oportunidade. Por que eu coloquei meu coração na mesa, abri, dissequei e mandei você olhar lá dentro, mas você disse que não, que não gosta de sangue. Você disse pra eu guardar, que não era bom deixar ele ali, tão desprotegido. Quando na verdade era você quem devia proteger e me tirar daqui, me levar pra algum lugar onde você esteja.

A saudade vai aos poucos se tornando solidão, e solidão dói mais. Às vezes vem a raiva me fazer companhia, mas ela não é forte o suficiente pra mandar a tristeza embora, então elas se juntam e viram uma sensação de derrota. Que não é mais sensação, senão derrota mesmo.

Me disseram que o amor é o ridículo da vida. Me disseram que o amor é dor, é fogo, é lindo. Só não me disseram que o amor não é suficiente. E eu que achei que tinha amor de sobra, me enganei? Mas pra mim sobrou amor. Tem por todos os cantos da minha casa, na minha bolsa, na minha agenda e nas roupas sujas jogadas pelo quarto. Sobrou demais, tanto que não tenho onde colocar, justo eu que não sou organizada tenho esse monte pra colocar em algum lugar seguro. Aí ele fica largado pela sala, alguém passa em cima e nem vê, ou então joga no lixo junto com o resto da comida chinesa largada há dias. Quando eu vou te encontrar, vou pegando ele de qualquer jeito, junto tudo numa mala e te levo pra ver se você quer, mas ele fica saindo pelos lados, transbordando, e você quer que eu guarde. Quer que eu deixe lá, trancado pra quando der vontade. Pra quando tiver certeza. Mas as certezas não existem. A gente inventa, molda com massinha e coloca dentro da nossa cabeça. Ela gruda tão forte que a gente pensa que acredita nela, pensa que ela está lá. E quando não está a gente acha que falta algo, que precisa dela; sem saber que o que a gente precisa a gente já tem. O que você precisa você já tem.

Verdade.

•fevereiro 19, 2010 • 1 Comentário

“O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta.”

Marçal Aquino. Mas poderia ter sido meu.

Pour toi.

•setembro 8, 2009 • 3 Comentários

Te vejo como uma silhueta preta contra a luz. E quanto mais você se aproxima,mais eu me afasto. Por que a silhueta é tão perfeita, tão sem defeitos, vícios, sem detalhes. A silhueta não pode ser tocada,não pode ser medida e, melhor, não pode me alcançar. A silhueta é um vulto e o vulto é o alívio,é o conforto, a ignorância. O vulto é a fuga. Te vejo como vulto porque as luzes não se acendem; você não me deixa abrir a porta e acender a luz e te olhar nos olhos,te beijar a boca e cuidar de você. Eu me afasto na verdade porque você me empurra contra a luz e me transforma em vulto também, me faz perder quem eu sou e eu acredito tanto em você que esqueço quem eu era e quem eu queria ser. Você me empurra porque tem medo da minha realidade,tem medo do que eu posso te fazer sentir e tem medo de saber quem eu sou, porque isso te faria acreditar sentir aquilo que esconde. Assim vamos levando,fingindo ser real aquilo que se transformou em sombra. Fingindo tanto, que acreditamos nessa verdade inventada como se ela fosse a única . E como fazer se não me encontro mais naquela palavra dita com tanta sinceridade – achava eu – e que agora é um vazio, uma não-palavra, uma incerteza? Como crer que um dia você me olhou com sinceridade e que ouviu o que eu disse com o interesse de ver através de mim? Como saber se o que eu te disse era verdade, se eu respondia o que você falava e tudo isso não passava de um discurso falso e arquitetado? Não quero mais ser isso que eu me tornei ao seu lado. Não quero mais deixar você me empurrar contra a luz. Eu estou aqui agora, lembrei quem eu sou. Nua de mentiras, fingimentos, ilusões, receios. Sem máscara, sem você. A minha verdade não te basta. [?]

“Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso.” (Clarice Lispector)

Menina

•agosto 25, 2009 • 2 Comentários

Desde criança tenta descobrir o que significa a palavra “liberdade”. Na verdade busca a denotação de todas as palavras e inventa as suas quando não encontra as que precisa. Vive num mundo meio-fantasia-meio-realidade e nem sabe distinguir um do outro. Finge ser estrela, cometa, nuvem, e voa até o alto pra ver as pessoas pequenininhas lá embaixo; lá de cima é tudo bonito, distante, sozinho. Volta pra terra e se veste de moça, inventa histórias, países, línguas e vidas. Cresce devagar, sem medo, sem pressa, sem perceber.
Vira menina moça e quer ir, fugir, correr…mas volta querendo colo e chocolate quente. Sente os pingos da chuva no seu rosto, os raios de sol na sua pele e os cheiros ao seu redore não procura saber de onde vem. Se deixa levar pela melodia das vitrolas e roda até o dia clarear. Se vê nas personagens dos romances que lê, dos filmes que assiste e se transforma em mil, mesmo que uma. Se veste de todas as cores e pinta flores no corpo com medo de não achá-las em seu caminho.
Aprende a amar, a sentir, a sofrer e guarda os rostos e vozes que passam pela sua vida, construindo imagens de queridos seres imaginários que sonha conhecer. Cada pessoa que passa pelo seu caminho deixa um pouco de si: um sorriso,um gesto,um abraço,uma lágrima, e tudo isso se transforma em uma coleção de memórias que se mesclam a ela de tal maneira que ninguém mais sabe qual pedaço é qual. É caleidoscópica, é mosaico.
Não segue os passos deixados na areia, tem medo de esquecer de quem são os passos, e nos passos de outrem não há insegurança, não há livre-arbítrio, não há perigo. E não entende o porquê de não criar seus próprios passos e, quem sabe, perder-se só pelo prazer de se encontrar. Enganam-se os que pensam que ela é porcelana ou papel. Ela é barro, é lama, é pedra e não se deixa levar por uma brisa – a não ser que ela queira se fazer leve e voar sem rumo por aí.
Dorme sempre com uma luz acesa e com uma mão segurando a outra. Espera que um dia uma das mãos seja substituída por alguém que vista um terno de estrelas e ande numa corda bamba de olhos fechados. Alguém que se sinta em casa quando a abraça e que garanta que as flores estejam sempre lá. Alguém que fale em poesia e caminhe em compassos.
Não sabe que não precisa saber o que significado daquela palavra desconhecida para poder vivê-la do modo mais intenso possível. É furacão e tempestade mas também sabe ser brisa e garoa. É uma pergunta e uma exclamação,um verbo e um ponto final.

Exagero

•agosto 19, 2009 • 2 Comentários

Numa análise ensaiada de nós mesmos, digo-lhe que não sou quem eu queria ser, e nem você é. Tente, então, ser o que eu quero que eu serei o que você quer. É bem mais fácil do que parece, porque parece tão difícil. Eu quero uma Lispector e você…você não quer. Eu prefiro marlboro, e você que nem sabe o que prefere!? Eu gosto de café,de cachorro,das tardes de inverno,de samba,de torta de morango,de roxo,de borboletas,de dança.Você gosta de mim, ou de idéia feita,pronta, de mim. Eu acordo e você ainda está ai, imóvel, sem saber por onde começar.Você gosta do meu gosto e do meu gostar de você. Eu li a sua agenda e eu estava presente em todos os dias, até nos domingos à tarde. Mas que tensão de mim, que exagero de mim. Você se esforça pra me fazer bem e eu continuo me sentindo mal. Devo me contentar com sua vontade,com sua intenção, pra não deixar de ser essa razão de ter você aqui. Pra quê mentir se o si já se tornou meu e, agora, me pergunto “tem como voltar atrás“? Pra consertar, sabe como é? Não sabe! Você só sabe das coisas que eu sei. Você quer casar.Eu quero fazer bolo de banana e tomar coca-cola.Você tem ciúmes e eu tenho amor,tenho saudades,tenho carinho,gosto de contato,de gente,de pele.Eu tenho ido por ai, quase indo de verdade. Quando eu volto, revolto a me perguntar: o que me atrai tanto e me cria presa a você? Eu não sei, nem você. Só sabe do nós em que o eu se tornou nesse mergulho de coisas malucas e densas, entre o nós. E eu só tenho a mim, já que você não passa de nós, e nós pro mim já nem tem mais graça. Acabou a graça! Aquela de brincar de fingir, e fugir…Quem é você, além do espelho forçado de mim?

Sem título.

•agosto 11, 2009 • 1 Comentário

Já me vi em você. Olhava nos seus olhos e eles eram como um espelho,não podia olhar por muito tempo ou me perdia. Já fiz planos, promessas, juras. Já te quis como ninguém,já chorei de medo de te perder e já senti a solidão de te ver partir. Agora não há mais espelho,nem olhos,nem boca. Agora é cada um na sua,eu cigarro,você cachaça; eu samba, você bolero. Eu presente do indicativo,você pretérito perfeito.

Te vejo passar e não te reconheço, não sinto seu cheiro nas minhas roupas, não te vejo nas fotos das paredes. Aquela cama em que me sentia tão sozinha quando você ia embora, agora é do tamanho certo pra mim. Aquela água que você me trazia eu mesma pego e aquela flor que você nunca me deu,eu já não preciso mais. Aquele abraço de despedida não doeu, não mexeu, não foi nada.

Mas como pode ser nada algo que um dia já foi tão tudo. Como pode ser eu aquilo que um dia só foi nós? Como pode ser distante – tão longe,longe.longe – aquilo que um dia foi junto. Tão junto que cansou. Tão junto que doeu,que misturou os eus e o nós ficou confuso.Porque o nós precisa saber que é composto de dois, de mim e de você. Ou de você e de eu. E aí o nós vai levando as coisas, sabendo que tem dois ali.O nosso nós ficou confuso,sem saber quem era eu e quem era você. Eu gostava de ser nós, achava que não tinha nada mais lindo que isso. E agora eu não consigo imaginar ser nós com ninguém.Não quero com você.Nem com ele.Só comigo.Dá pra ser nós comigo mesma?

Da pra deixar de ser nós,sem deixar de ser eu?Dá pra pegar de volta a metade de mim que você me roubou?Roubou sem me avisar,sem pedir,sem que eu quisesse.Me devolve a minha metade,me deixa ser eu de novo por que o nós já cansou.Eu esqueci quem é o nós,quem é o eu.Eu esqueci a carteira em casa,esqueci a torneira aberta e esqueci de você.Esqueci de te amar por um segundo e esqueci o que é o amor.

 
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