Te vejo como uma silhueta preta contra a luz. E quanto mais você se aproxima,mais eu me afasto. Por que a silhueta é tão perfeita, tão sem defeitos, vícios, sem detalhes. A silhueta não pode ser tocada,não pode ser medida e, melhor, não pode me alcançar. A silhueta é um vulto e o vulto é o alívio,é o conforto, a ignorância. O vulto é a fuga. Te vejo como vulto porque as luzes não se acendem; você não me deixa abrir a porta e acender a luz e te olhar nos olhos,te beijar a boca e cuidar de você. Eu me afasto na verdade porque você me empurra contra a luz e me transforma em vulto também, me faz perder quem eu sou e eu acredito tanto em você que esqueço quem eu era e quem eu queria ser. Você me empurra porque tem medo da minha realidade,tem medo do que eu posso te fazer sentir e tem medo de saber quem eu sou, porque isso te faria acreditar sentir aquilo que esconde. Assim vamos levando,fingindo ser real aquilo que se transformou em sombra. Fingindo tanto, que acreditamos nessa verdade inventada como se ela fosse a única . E como fazer se não me encontro mais naquela palavra dita com tanta sinceridade – achava eu – e que agora é um vazio, uma não-palavra, uma incerteza? Como crer que um dia você me olhou com sinceridade e que ouviu o que eu disse com o interesse de ver através de mim? Como saber se o que eu te disse era verdade, se eu respondia o que você falava e tudo isso não passava de um discurso falso e arquitetado? Não quero mais ser isso que eu me tornei ao seu lado. Não quero mais deixar você me empurrar contra a luz. Eu estou aqui agora, lembrei quem eu sou. Nua de mentiras, fingimentos, ilusões, receios. Sem máscara, sem você. A minha verdade não te basta. [?]
“Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso.” (Clarice Lispector)
